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Tratamento de efluentes agroindustriais deve ser visto como oportunidade e não como "mal necessário"

Tratamento de efluentes agroindustriais deve ser visto como oportunidade e não como "mal necessário"

Em entrevista concedida ao canal Arena Ambiental, o professor associado da FEAGRI, Dr. Ariovaldo José da Silva, trouxe uma visão inovadora sobre o manejo e a destinação de resíduos líquidos no setor produtivo. Segundo o docente, a mentalidade do setor está mudando: as Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs) deixaram de ser apenas uma obrigação legal para evitar multas e passaram a ser enxergadas como biorrefinarias, verdadeiras fontes de recuperação de recursos e geração de receita.

Durante o bate-papo, o professor detalhou os impactos ambientais, as soluções tecnológicas e as perspectivas de sustentabilidade para o setor:

  • O perigo da poluição invisível: Efluentes de laticínios, frigoríficos, usinas e da piscicultura carregam altas cargas orgânicas e de nutrientes. Se descartados sem tratamento, podem causar a eutrofização (superpopulação de algas que consome o oxigênio e mata peixes), além de impactos térmicos graves (como no caso da vinhaça quente) e a disseminação de contaminantes emergentes, como resíduos de antibióticos na criação de peixes.

  • Do resíduo ao lucro: O Dr. Ariovaldo destacou que as correntes líquidas agroindustriais são ricas em proteínas, nitrogênio e fósforo. Hoje, a ciência e o mercado buscam transformar esses componentes em biofertilizantes, recuperar ácidos de alto valor para as indústrias farmacêutica e de tintas, e gerar energia por meio do biometano, embora o professor faça um alerta "pé no chão" de que o investimento em biogás exige estudos rigorosos de viabilidade técnica.

  • Tecnologia acessível para o pequeno produtor: O tratamento não é exclusividade de grandes corporações pressionadas pelas metas ESG. Para a agricultura familiar e pequenas agroindústrias (como queijarias e processadoras locais), existem soluções de baixo custo e baseadas na natureza. O docente citou como exemplo o uso de fossas sépticas redimensionadas associadas a wetlands (filtros biológicos) e plantas como o aguapé, que filtram a água de forma eficiente e sem a necessidade de operação altamente especializada.

  • Financiamento e o papel da Academia: Atualmente, existem linhas de incentivo governamentais (como editais da FINEP e FUNASA) e privados (como Fiagros e títulos verdes) voltados para o saneamento e transição ecológica. A parceria entre indústrias e universidades é fundamental para validar e baratear essas tecnologias nacionais.

O pesquisador encerrou a entrevista reforçando que o futuro do setor caminha lado a lado com a automação, inteligência artificial e internet das coisas (IoT) para monitoramento de eficiência. Ele reafirmou o compromisso da FEAGRI em manter suas portas abertas para produtores e empresas que buscam desenvolver soluções tecnológicas sustentáveis rumo à meta de "emissão zero".